Artes Marciais: o gigante adormecido da Indústria do Fitness

Estávamos em 1993, era eu cinto castanho de Karate, quando um brasileiro magro e com fraca aparência, de seu nome Royce Gracie, enfrenta verdadeiros gigantes pela primeira vez no octógono e, qual David contra Golias, vence o primeiro Ultimate Fighting Championship (UFC).  O mundo das Artes Marciais (AM) nunca mais viria a ser o mesmo.

Martial Arts MMCorri para a banca das revistas atrás de notícias frescas – afinal, nunca nem tinha ouvido falar do tal de Jiu Jitsu Brasileiro, quanto mais sequer imaginar que o lutador mais leve de todos conseguiria vencer o primeiro campeonato que colocou em oposição várias AM diferentes. A influência desse momento ecoa até aos dias de hoje. As AM (algumas, pelo menos) foram forçadas a adaptar-se e desenvolver soluções mais funcionais. A cobertura mediática em torno das AM aumentou – à semelhança do que tinha acontecido décadas antes em torno do fenómeno Bruce Lee. Os ginásios especializados encheram-se de praticantes.

Nos EUA o Mercado das AM vale já 3 mil milhões de dólares americanos e estima-se que continue a crescer a um ritmo acelerado até 20191 |1|. Embora noutros países os Ginásios e Health Clubs (GHC) tenham conseguido absorver uma boa fatia deste Mercado, arrisco-me a dizer que em Portugal, as AM ainda aguardam por uma leitura mais atenta por parte de proprietários e gestores.
Em relação ao “produto” AM, julgo pertinente distinguir 2 públicos-alvo: os que pretendem praticar uma verdadeira AM, Desporto de Combate ou Sistema de Defesa Pessoal; e aqueles que pretendem uma modalidade de fitness com movimentos de Artes Marciais. São públicos diferentes que precisam de uma abordagem diferenciada.

Vamos por partes: o aumento da percepção de violência por parte das pessoas, a somar ao fenómeno das Mixed Martial Arts (MMA) provocou um aumento da procura deste tipo de actividades. O Mercado existe, os proprietários dos GHC’s é que ainda não despertaram – afinal, quanto custa montar um bom estúdio de AM, quando comparado com o custo de um Bike Studio, por exemplo. Posso garantir que o investimento é consideravelmente inferior e o potencial de retorno hipoteticamente mais rápido. O perigo aqui está no controlo do nível da formação dos professores, com especial relevância para os instrutores de Defesa Pessoal – muitas organizações, na ânsia de formarem instrutores, fornecem cursos com a mesma velocidade e facilidade com que se pede um hamburger no McDonalds. É preciso estar atento.

Mas julgo que o verdadeiro potencial do negócio estará nas actividades de Fitness com movimentos de AM. Recentemente, têm sido introduzidas nos GHC modalidades de Fitness que foram buscar não só os movimentos das AM (o Body Combat da Les Mills é disto um bom exemplo) mas também os equipamentos específicos de treino – sacos de boxe, plastrons e focus gloves, entre outros. Aqui, são usados exercícios e drills próprios das AM, mas minimizando ou mesmo eliminando o contacto e o sparring, uma vez que o foco é desenvolver a saúde e condição física e não a eficiência em combate |2|. Como nota final, julgo que o maior entrave ao desenvolvimento das AM nas suas variadas expressões dentro dos GHC estará na fraca percepção do potencial de negócio que ainda persiste por parte de proprietários e gestores, somada à inexistência de formação específica dirigida para o Fitness e a  quase ausência de marketing dirigido a este público-alvo. Mas como dizia a famosa frase do filme norte-americano Field of Dreams: “if you build it, they will come”.

|1| http://www.nwherald.com/2015/02/16/mchenry-countys-martial-arts-industry-continues-growing/aqh7emq/
|2| Fitness Australia – The Health & Fitness Industry Association (2012). Boxing, Kickboxing and MMA for Fitness – Safety Guidelines.

 

Mauro Frota é um experiente profissional do fitness,  licenciado em Ciências do Desporto e pós-graduado em Marketing no Fitness e Gestão de Heatlh Clubs, possui cinto negro (4º Dan) de Karate de Okinawa e Cinto Negro (1º Dan) e é praticante de outras técnicas e artes marciais.
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